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O empreendedorismo está em baixa no alto clero

Por Marcus Mendes

Quem acompanha as notícias do mundo da tecnologia sabe que existem duas grandes feiras que dão o pontapé inicial do ano e indicam o que vem por aí. A CES, ou Consumer Electronics Show, acontece logo nos primeiros dias do ano em Las Vegas e, pouco tempo depois, é a vez da MWC, a Mobile World Congress, em Barcelona.

Apesar de terem propostas diferentes — a CES é em sua maior parte para dispositivos diversos, com apelo para o grande público, enquanto a MWC tem um foco maior em dispositivos móveis —, as duas feiras cumprem o mesmo papel: mostrar para a imprensa e para o mundo o que vem por aí.

Eu costumo dizer que elas são o equivalente a um Fashion Week, ou algo do gênero; elas apresentam as tendências da estação, dando a dica do que podemos esperar que chegue às prateleiras ao longo dos próximos meses.

Historicamente, ambas feiras eram bastante aguardadas por todo o mercado. O público ligado em tecnologia ficava ansioso para ver as novidades da CES, com produtos interessantes e conceitos promissores, e ficava igualmente ouriçado ao acompanhar os lançamentos da MWC, com anúncios de diversas fabricantes explorando uma visão diferente sobre o futuro do mercado.

No entanto, nos últimos anos, a situação vem mudando um pouco de figura. A CES vem perdendo seu brilho e ano após ano vem despertando cada vez menos o interesse até mesmo dos mais aficionados por tecnologia. Para piorar, esta mesma apatia parece estar chegando à MWC.

O que aconteceu com a CES?

Como um absoluto entusiasta da tecnologia, isso vem me incomodando. Admito que virei parte do problema, ao ter passado a falar sobre ambas feiras com certo cinismo. Porém olhando mais profundamente, cheguei à conclusão que a culpa não é do público e tampouco dos jornalistas. A culpa é do mercado, que perdeu a coragem de empreender e de inovar.

Explico:

Originalmente, a CES era uma feira com uma pegada quase B2B. Um dos maiores objetivos das marcas expositoras era conseguir falar com grandes redes varejistas, e fechar negócios.

Na prática, isso significa que era a oportunidade que a Samsung, por exemplo, tinha de apresentar ao Wal-Mart, por exemplo, os conceitos das TVs que ela pretendia lançar até o final do ano.

Neste exemplo fictício (pero no mucho), isso dava ao Wal-Mart a chance de testar as TVs, decidir se gostaria de vendê-las em suas lojas, e firmar ali mesmo os acordos de fornecimento estabelecendo prazos, quantidades e todos os detalhes relativo à forma como essas TVs chegariam ao mercado nos meses seguintes.

Com o crescimento (gigantesco, diga-se de passagem) da CES, um dos resultados bastante positivos foi o fato da feira ter passado a dar cada vez mais espaço a pequenas empresas de tecnologia.

A feira proporcionava networking, dava a oportunidade das pequenas empresas conversarem e até mesmo estabelecerem parcerias com as grandes e, para a imprensa, servia como um buffet livre de notícias de tecnologia em um momento bastante morno do ciclo de novidades.

O problema é que nos últimos anos este cenário tem mudado bastante.

A CES se tornou sinônimo de vaporware, que é o termo usado para descrever um software ou hardware que faz muito barulho mas não entrega nada.

Muito do que se vê na CES hoje em dia não chega a ver a luz do dia como um produto final e quase tudo o que surge por ali parece uma traquitana rejeitada da coleção particular do Professor Pardal. São mares de capinhas e acessórios de smartphones, ou produtos da onda do IoT que não tem um motivo muito claro para existir (nem mesmo na cabeça de quem os inventou).

Toda a criatividade e todo o poder empreendedor de engenheiros, programadores, designers e entusiastas brilhantes está sendo desperdiçado em um sem-fim de replays dos mesmos conceitos do ano anterior, tentando aproveitar a onda do sucesso de produtos bem-estabelecidos como se fossem um cardume de peixes nadando ao lado de um tubarão.

O que aconteceu com a MWC?

Eis que nos calcanhares da CES, vem a MWC: novidades do mundo móvel. A Meca (ainda que catalã) da inovação portátil.

Não muito.

A edição 2018 da feira terminou há pouco. Empresas como a Samsung, ASUS e a LG aproveitaram os holofotes para apresentarem suas visões do futuro da tecnologia portátil, e todas elas falham miseravelmente na tarefa primordial da aplicação da tecnologia: movê-la adiante.

Há aproximadamente 6 meses, a Apple anunciou a primeira verdadeira releitura do design do iPhone. Assim como já vinha se estabelecendo como tendência no mercado ela apresentou um celular quase sem bordas, exceto pela parte de cima que traz uma área que invade o display para acomodar sensores biométricos. É o Face ID.

Essa decisão foi bastante criticada e discutida à exaustão nas ágoras digitais, sendo classificada (por mim, inclusive) como um claro sinal de que o M.O. atual é “não é o ideal, mas é o que tem para hoje”. Se um problema tecnológico ainda não tem uma solução, ela pode ser lançado mesmo assim. Uma hora a solução aparece.

Digo isso pois o Face ID é paradoxalmente uma maravilha da miniaturização tecnológica, composto por um sistema tão poderoso quanto um Xbox Kinect, e muito grande para integrar a parte frontal do iPhone sem que em troca os clientes tenham de perder um pedaço do display. Um pedaço do display!

Cortamos a cena para o presente e, em um período de 72h foram apresentados 2 clones do polêmico iPhone X. A ASUS anunciou seu Zenfone 5, vangloriando-se de trazer um entalhe 26% menor do que o iPhone, e a LG mostrou o aparelho G7 parece apenas um Zenfone 5 com um logotipo diferente gravada na traseira. Ambos são clones do iPhone X.

A meu ver, ambos são uma oportunidade irremediavelmente perdida de empreender. De tomar para si a tarefa de realmente inovar. De trazer novas soluções e opções a um mercado que há alguns anos parece ter estagnado.

Perguntado sobre o design do Zenfone, o Diretor Global de Marketing da Asus, Marcel Campos, disse que a empresa não está copiando a Apple mas precisa seguir a tendência do mercado.

Trocando em miúdos, a ASUS foi brutalmente franca ao confirmar uma hipótese que há muito tempo me preocupava: o espírito de inovação do mercado de tecnologia deu lugar a um insípido cenário de siga-o-mestre.

O romantismo dos Piratas do Vale do Silício se transformou em uma espécie de Senhor das Moscas mercadológico e econômico, onde não existe um real espaço para inovar. Ideias diferentes, espíritos empreendedores dentro das empresas são silenciados frente à necessidade de lançar um celular com os mesmos recursos do vizinho.

E se for parecido, melhor ainda. Pula-se a etapa do design. Vai que eles também resolvem apresentar ideias originais, certo?

O que aconteceu com o mercado?

Os movimentos recentes da CES e da MWC marcam um capítulo regido por uma absoluta falta de inspiração de todo o mercado de tecnologia.

As pequenas empresas que participam da CES pararam de empreender, pararam de pensar em projetos realmente inovadores, deixaram de arriscar e, ao invés disso, tem investido em projetos repletos de nada. Para que empreender e arriscar de verdade, com uma ideia realmente nova, se é mais fácil fazer um acessório para o próximo iPhone?

Enquanto isso, e esta é a real tragédia da situação, as grandes empresas mostraram na MWC que o espírito inovador — que provavelmente foi o que as motivou a chegarem ao topo — morreu, e qualquer iniciativa empreendedora dentro da empresa parece estar sendo sufocada pelo espírito de me-too.

E este triste movimento não se limita ao hardware: a Samsung apresentou o aparelho Galaxy S9 — apenas uma iteração do modelo anterior — trazendo sua resposta ao Face ID do iPhone X.

É bem verdade que ela já possuía algo parecido com isso no aparelho anterior, mas dessa vez ela acredita ter acertado. E a confiança é tanta que a empresa apresentou sua resposta a um dos recursos mais populares do novo iPhone: o aparelho mapeia o rosto do usuário e aplica os movimentos, em tempo real, em um personagem tridimensional.

No caso da Apple, o nome desse recurso é Animoji e ele se tornou bastante popular dando origem a videoclipes com ursos e cachorros cantando clássicos do rock como Bohemian Rhapsody.

Já a Samsung, confiante em seu produto, lançou algo… parecido. Parecido e absolutamente horripilante. O nome desta aberração é ARmoji, e ele parece algo vindo de um assustador episódio de Black Mirror. Mais uma vez, penso no M.O. atual: “não é o ideal, mas é o que tem para hoje. “

https://twitter.com/greengart/status/968674581262290944

Nem tudo está perdido

Eis que em meio a tanta gente chata sem nenhuma graça, as start-ups vieram. E seguem vindo. Felizmente não é raro encontrarmos empresas pequenas, por vezes embrionárias, com uma sede empreendedora que parece tentar compensar todo o marasmo que se estabeleceu no resto do mercado.

Basta um passeio rápido por co-workings, por aceleradoras, por bootcamps e por hackathons para que essa desesperança pelo futuro da tecnologia dê lugar a um vibrante clima de verdadeira evolução.

O espírito empreendedor felizmente ainda reina na periferia do status-quo tecnológico e, francamente, serve como uma aula-magna do real significado das palavras evolução, inovação e empreendedorismo.

Quanto mais eu tenho contato com o talento e com o esforço que estes espíritos genuinamente empreendedores aplicam em seus projetos, mais eu tenho certeza de que as grandes empresas perderam algo no caminho do sucesso.

E o resultado é justamente esse: as maiores feiras de tecnologia do mundo se tornaram clichês de si mesmas, apresentando os mesmos projetos em um loop infinito de mediocridade, e deixando avenidas de oportunidades para quem ainda tem sede, vontade e coragem de levantar uma bandeira realmente nova e carregá-la até o fim.

Estas pessoas deveriam ser estudadas a fundo pela liderança de todo o Vale do Silício. Elas deveriam já ocupar o Olimpo da História da Mercadologia.

Mas elas provavelmente não teriam tempo para nada disso.

Neste momento, elas estão ocupadas com os próprios projetos, escrevendo a real história do futuro.

By | 2018-03-18T19:51:08+00:00 março 18th, 2018|Categories: Sem categoria|0 Comments

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